Como Escolher um Curso para ensino superior ?

Entre a Voz dos Outros, o Dinheiro e a Descoberta de Si Mesmo

Introdução

A escolha de um curso profissional é uma das decisões mais importantes da vida de qualquer jovem. Após concluir a 12.ª classe, muitos estudantes encontram-se diante de uma questão difícil: que rumo seguir? Qual profissão escolher? Que futuro construir?

Nesse momento surgem inúmeras opiniões. Pais, familiares, amigos, professores e conhecidos apresentam sugestões sobre o que o jovem deveria estudar. Uns defendem Medicina, outros Engenharia, Direito, Contabilidade ou qualquer outra área que consideram promissora. O resultado é um verdadeiro ruído de vozes externas que, muitas vezes, confundem mais do que ajudam.

Mas existe uma questão fundamental que raramente é feita: essas pessoas conhecem verdadeiramente os teus gostos, talentos e aspirações? Na maioria dos casos, não. E, por vezes, nem o próprio jovem conhece plenamente as suas capacidades.

Dessa forma, a escolha de um curso torna-se muito mais do que uma decisão académica. Ela transforma-se numa jornada de autoconhecimento.

O Perigo de Viver os Sonhos dos Outros

Uma das maiores armadilhas na escolha de uma profissão é permitir que os desejos dos outros substituam os nossos próprios desejos.

Muitos pais sonham em ter um filho médico. Outros imaginam um engenheiro, advogado ou professor. Esses sonhos não são necessariamente maus; normalmente nascem do amor e da vontade de proporcionar uma vida melhor aos filhos. No entanto, existe uma diferença entre orientar e decidir pela outra pessoa.

O que os outros desejam que sejamos nem sempre corresponde àquilo que realmente somos.

Uma pessoa pode possuir talento para a arte, mas ser pressionada a estudar Engenharia. Outra pode ter paixão por números e ser incentivada a seguir Direito. Quando isso acontece, surge um conflito entre a identidade pessoal e as expectativas sociais.

A consequência é que muitos profissionais passam anos a exercer uma atividade pela qual não sentem qualquer paixão, apenas porque seguiram escolhas feitas por outras pessoas.

O Dinheiro Como Fator de Escolha

Outro elemento que influencia fortemente a escolha de um curso é o dinheiro.

Em praticamente todos os países, e especialmente em contextos de dificuldades económicas, o rendimento potencial de uma profissão torna-se um fator decisivo.

Mas por que razão tantas pessoas escolhem cursos pelo dinheiro em vez do amor pela profissão?

A resposta não é simples.

Imagine alguém que cresceu em condições extremamente difíceis, enfrentando pobreza, privações e sofrimento constante. Quando chega o momento de escolher uma profissão, é natural que procure uma área que ofereça estabilidade financeira.

Nesse caso, o dinheiro deixa de ser apenas uma ambição e passa a representar sobrevivência.

No entanto, existe também outro grupo de pessoas que escolhe determinada profissão apenas porque acreditam que um salário elevado é sinónimo de riqueza e felicidade. Essa é uma visão limitada da realidade.

O dinheiro é importante. Ele proporciona conforto, segurança e oportunidades. Porém, não é suficiente para garantir realização profissional.

Muitos profissionais ganham bem, mas vivem frustrados porque exercem uma atividade que não lhes traz satisfação. Da mesma forma, existem pessoas que encontraram significado no seu trabalho e, justamente por isso, alcançaram também sucesso financeiro.

O Curso Não É Apenas um Curso

Um erro comum consiste em pensar que o curso é apenas uma etapa temporária da vida.

Na realidade, quando escolhemos um curso estamos, de certa forma, a escolher uma parte significativa do nosso futuro.

A profissão será uma atividade à qual dedicaremos milhares de horas ao longo da vida. Será nela que investiremos energia, criatividade, esforço e tempo.

Por isso, a pergunta mais importante não deveria ser:

"Qual curso paga mais?"

Mas sim:

"Em que atividade consigo imaginar-me a trabalhar durante muitos anos sem perder a motivação?"

A resposta para essa pergunta aproxima-nos daquilo que verdadeiramente somos.

O Desafio de Descobrir a Própria Vocação

Muitas pessoas afirmam que não sabem do que gostam ou qual é a sua vocação.

Isso é perfeitamente normal.

Na maioria das vezes, ninguém nos ensinou a descobrir os nossos talentos. A escola preocupa-se em transmitir conteúdos, mas raramente ensina os estudantes a conhecerem-se a si próprios.

Por essa razão, a ausência de uma paixão claramente definida não deve ser motivo de desespero.

Descobrir uma vocação é um processo. Exige reflexão, experimentação e observação de si mesmo.

Antes de procurar um curso, é necessário procurar compreender quem somos.

Libertar-se das Prisões Mentais

O primeiro passo para encontrar a profissão adequada consiste em libertar-se de duas grandes prisões:

A prisão do dinheiro

O dinheiro deve ser considerado, mas não deve ser o único critério.

Quando o dinheiro se torna o único motivo da escolha, a profissão transforma-se numa obrigação e não numa realização.

A prisão das opiniões alheias

Quem vive exclusivamente para satisfazer as expectativas dos outros acaba por tornar-se escravo das escolhas dos outros.

A verdadeira liberdade profissional surge quando a decisão é tomada com consciência e responsabilidade próprias.

Um Método para Escolher um Curso

Primeira Etapa: Identificar as Disciplinas de Maior Interesse

As disciplinas escolares podem oferecer pistas importantes sobre as áreas que despertam mais interesse.

Pergunte a si mesmo:

  • Que disciplinas gosto de estudar?

  • Quais são aquelas em que o tempo passa mais rápido?

  • Em quais sinto curiosidade natural?

As respostas ajudarão a identificar áreas de afinidade.

Segunda Etapa: Procurar Cursos Relacionados

Depois de identificar as disciplinas preferidas, procure os cursos que possuem ligação com essas áreas.

Por exemplo:

  • Matemática e Física podem conduzir a diversas Engenharias.

  • Biologia e Química podem conduzir à Medicina, Enfermagem.

  • Português e História podem abrir caminhos para Direito, Jornalismo.

Faça uma lista de todas as possibilidades.

Terceira Etapa: Conhecer a Realidade da Profissão

Este é o passo mais importante.

Muitas pessoas escolhem um curso porque admiram profissionais bem-sucedidos naquela área. No entanto, admiram os resultados sem conhecer o trabalho diário que existe por trás deles.

Pesquise profundamente:

  • O que faz um profissional dessa área?

  • Como é o seu dia de trabalho?

  • Que problemas resolve?

  • Que responsabilidades assume?

Depois tente imaginar-se a desempenhar aquelas funções.

Pergunte a si mesmo:

"Consigo sentir-me feliz a fazer isto todos os dias?"

Se a resposta for positiva, talvez tenha encontrado uma área compatível consigo.

Quando os Talentos e os Gostos Não Coincidem

Por vezes, as disciplinas em que somos melhores não correspondem necessariamente àquilo que mais gostamos.

Isso não significa que estamos perdidos.

Pode acontecer que um estudante tenha excelentes notas numa área, mas não consiga imaginar-se a trabalhar nela durante toda a vida.

Nesse caso, vale a pena explorar novas combinações de interesses e continuar a investigação.

O objetivo não é apenas encontrar algo em que somos bons.

O objetivo é encontrar algo em que possamos ser bons e felizes ao mesmo tempo.

A Dor do Esforço e a Dor do Arrependimento

Existe uma antiga ideia que afirma que todo prazer está associado a uma dor.

A questão é escolher qual dor estamos dispostos a enfrentar.

Podemos enfrentar a dor temporária de aprender algo difícil para seguir uma profissão que amamos.

Ou podemos evitar essa dificuldade inicial e passar o resto da vida a sentir a dor de trabalhar numa área que não nos realiza.

A primeira dor é passageira.

A segunda pode durar uma vida inteira.

Conclusão

Escolher um curso profissional não é apenas escolher uma forma de ganhar dinheiro. É escolher uma maneira de contribuir para o mundo e de construir uma vida com significado.

O dinheiro é importante, mas não deve ser o único critério. As opiniões dos outros podem ajudar, mas não devem substituir a nossa própria consciência.

A melhor escolha nasce do encontro entre talento, interesse, propósito e dedicação.

Quando uma pessoa encontra uma profissão que ama, o estudo deixa de ser um fardo, o trabalho deixa de ser apenas uma obrigação e a criatividade floresce naturalmente.

O verdadeiro sucesso não pertence necessariamente àqueles que escolheram a profissão mais lucrativa, mas àqueles que descobriram quem são e tiveram coragem de viver de acordo com essa descoberta.

A profissão ideal não é aquela que os outros escolheram para nós. É aquela que nos permite ser, todos os dias, a melhor versão de nós mesmos.

Autor: Paulo Joaquim Massingue

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