Naufrágio Espiritual

I. Introdução 
O naufrágio espiritual constitui uma realidade presente na vida de muitos crentes, caracterizando-se pela perda da fé, pelo afastamento progressivo de Deus e vida pecaminosa. Assim como um navio pode afundar em meio às águas devido a falhas estruturais ou condições adversas, também o crente pode experimentar uma queda espiritual quando deixa
de vigiar e de manter firme a sua comunhão com Deus.

Neste contexto, o presente trabalho tem como objectivo despertar o aluno a combater e precaver-se do naufrágio espiritual, abordando o seu conceito, características, causas e consequências, bem como os meios de resgate e prevenção. Parte-se do princípio de que as tribulações, embora inevitáveis na vida cristã, não são a causa directa do naufrágio, contudo, a forma como são enfrentadas pode determinar o fortalecimento ou a queda espiritual do crente.

Dessa forma, serão apresentados factores como a imoralidade sexual e o amor ao dinheiro, que têm contribuído significativamente para o afundamento espiritual, além de se destacar as consequências desse estado e os princípios bíblicos que orientam o retorno e a permanência na fé.



II. Naufrágio Espiritual

1. Conceito

A palavra naufrágio vem do latim “naugragium”, que significa literalmente quebra do navio ou navio arrebentado, podemos definir naufrágio como perda total ou parcial de uma embarcação em consequência de um acidente ocorrido em meio aquático, por outras, afundamento de qualquer meio de transporte aquático.

Deste modo, pode-se definir naufrágio espiritual como perda da fé por parte de um crente (1 Tm 1:19).

2. Características

Naufragar no espírito é quando o barco(fé) afunda, ou seja, encontrar-se submergindo sobre as águas profundas (vida pecaminosa), vivendo sob domínio pecado (Jo 8:34), satisfazendo a vontade da carne (Ef 2:3) e afastando-se da vontade de Deus (Rm 3:23; Is 59:2).

De forma geral, o naufrágio espiritual carateriza-se:

·         Perda da fé (1 Tm 1:19):

A perda da fé é caraterizada pelas dúvidas constantes, abandono da confiança em Deus, e a Bíblia afirma que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11:6), porque o que não procede da fé é pecado (Rm 14:23);

·         Afastamento de Deus (Is 59:2):

O primeiro naufrágio espiritual na humanidade aconteceu com Adão e Eva no jardim do Éden (Gn 3), depois de terem cedidos à tentação da serpente (Gn 3:5), desobedecendo à ordem de Deus (Gn 2:16-17), desta forma, o pecado de Adão e Eva isolando-os da presença de Deus (Gn 3:8,10).

·         Vida pecaminosa (Jo 8:43):

O pecado é a principal evidência do naufrágio espiritual (1 Tm 1:19; Is 5:2), uma pessoa que leva uma vida pecaminosa, de acordo com a Bíblia está destituída da gloria de Deus (Rm 3:23), passando a servir a vontade da carne (Gl 5:19-21) e afastando-se dos princípios estabelecidos por Deus (1 Jo 3:4)

3. Causas

As tribulações na vida do crente não constituem, em si, o problema, contudo, a forma como o crente lida com elas, pode produzir consequentemente o problema, a Bíblia diz que as tribulações produzem paciência, e a paciência produz experiência e a experiência produz esperança (Rm 5:3-4). Dessa forma, quando enfrentadas com audácia fortalecem o crente, e mal administradas podem levar(causar) ao naufrágio espiritual.

A causa do nauf'rágio espiritual é o pecado(Is 59:2). Existem várias causas que levam ao naufrágio espiritual. Neste trabalho, o foco centra-se naquelas que têm sido determinantes no naufrágio da fé do crente:

  a) Imoralidade sexual;

  b) Amor ao dinheiro;

a) Imoralidade sexual

Segundo a Bíblia, imoralidade sexual é toda a prática sexual fora do padrão estabelecido por Deus (Gn 2:24).

Todo o pecado que o homem comete é fora do seu corpo, mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo (1 Co 6:18), a este tipo de pecado a Bíblia orienta a fugir, pois atenta contra o seu próprio corpo que é o templo de Espírito Santo (1 Co 6:19).

Grandes homens da Bíblia naufragaram espiritualmente por causa deste tipo de pecado. Personagens bíblicas como David (2 Sm 11:1-5) caíram ferrenhamente à imoralidade sexual.

A imoralidade sexual tem um poder de envolvimento e destruição que ultrapassa a razão humana, quando um crente se entrega à imoralidade sexual, ele não apenas desobedece a um mandamento (Êx 20:14 cf Mt 5:27-28), mas corrompe a base do relacionamento com Deus, que é a santidade, porque é da vontade de Deus a nossa santificação, que nos afastemos da prostituição (1 Ts 4:3).

b)  Amor ao dinheiro

De acordo com Keller (2018), o dinheiro é um dos falsos deuses mais comuns na cultura contemporânea. Ele cita Friedrich Nietzsche, que profectizou (profecia humana sem nenhuma inspiração do Espírito Santo de Deus) que o dinheiro talvez se tornaria o principal deus na cultura ocidental.

A Bíblia não condena o dinheiro em si, mas, declara que a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro (1 Tm 6:10).

 O problema não está na posse, mas na devoção. Quando o dinheiro deixa de ser instrumento e se torna um ídolo, o crente começa a navegar em águas perigosas, causando autolesão espiritual, ou seja, o crente que ama o dinheiro fere a si mesmo, pois coloca sua confiança em algo perecível e fútil.

Personagens da Bíblia como, por exemplo, Judas Iscariotes (Mt 26:14-16) e Ananias e Safira (At 5:1-2) naufragaram pelo amor ao dinheiro, movidos pela ganância.

4. Consequências

As consequências mais evidentes na pessoa que naufragou espiritualmente, são:

a)      Morte espiritual;

b)      Perda de identidade espiritual

c)      Escravidão espiritual

a) Morte Espiritual

 A morte é definida como separação, ou seja, na morte física o espírito separa-se do corpo (Ec 12:7), ao passo que, na morte espiritual o espírito separa-se de Deus (Is 59:2). Na morte espiritual o homem vive distante de Deus, sem comunhão com o seu criador.

Em (Ef 2:1) a Bíblia fala da morte em ofensas e pecados, que veementemente, é a morte espiritual, deste modo, a morte espiritual é a separação entre homem e Deus sendo o pecado a causa desta separação. Portanto, assim como o corpo sem espírito está morto, o espírito sem Deus está morto.

b) Perda de identidade espiritual

A perda de identidade espiritual é uma inversão de 2 Co 5:17, onde as coisas velhas voltam e as coisas novas passam, ou seja, volta a viver segundo a antiga natureza, como antes da conversão.

Na perda de identidade espiritual, a pessoa não sabe mais se é do mundo ou de Deus (vive dividido), não age mais como filho, mas, como órfão espiritual (Lc 15:11-24), esconde a fé e se ajusta ao padrão do mundo.

 

d) Escravidão espiritual

O pecado quando não confessado e abandonado diante de Deus, torna-se senhor de quem o pratica, porque todo aquele que comete pecado é escravo do pecado (Jo 8:34; Rm 6:16). Portanto, escravidão espiritual é caracterizada por uma vida governada pelo pecado.

5. O resgate do naufrágio espiritual

O resgate espiritual é o processo de restaurar aquele que naufragou na fé, trazendo-o de volta à comunhão com Deus. Como vimos nas características do naufrágio espiritual, a característica mais evidente na pessoa que naufragou espiritualmente é levar uma vida pecaminosa.

A Bíblia diz que o pecado afasta o homem da presença de Deus (Rm 3:23; Is 59:2), contudo, a Bíblia afirma que, porém, o salário do pecado seja a morte, o dom gratuito de Deus é a vida eterna (Rm 6:23).

Portanto, é desejo de Deus que todos sejam libertos do pecado, Ele se disponibiliza a ajudar todo aquele que está cansado da escravidão e opressão do pecado (Mt 11:28), sendo suficiente nos arrepender e confessarmos os nossos pecados diante de Deus, Ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda injustiça (1 Jo 1:9) e assim que Deus nos libertar, verdadeiramente somos livres(Jo 8:36) e voltamos a nos identificar com (2 Co 5:17), as coisas velhas passam e tudo se faz novo.

6. Prevenção

A manutenção preventiva é um tipo de manutenção imprescindível na vida de todo crente, ela consiste em evitar o esfriamento espiritual que consequentemente pode levar ao naufrágio espiritual.
As medidas de prevenção contra o naufrágio espiritual são:
a) A oração;

b) A palavra de Deus;

c) O jejum.

Essas três medidas de prevenção são a arma de peleja do crente.

 

a) A oração

Orar é falar com Deus, através da oração o crente desenvolve intimidade com Deus (Jr 29:12; Mt 6:6). A oração mantém o crente conectado com Deus, pela oração o crente fala com Deus apresentando seus anseios, petições… (Jr 33:3; 1Ts 5:17; Ef 6:17; Fp 4:6), cultivando intimidade e dependência no seu criador.
Através da oração o crente pede intervenção de Deus nas suas dificuldades, fraquezas evitando se estribar ao seu próprio entendimento que consequentemente pode o levar a naufragar na fé.

b) A palavra de Deus

O homem que navega sem bússola, facilmente perde a direção. A palavra de Deus é a bússola espiritual que orienta a vida, fé e conduta do crente (Sl 119:11, 105). A palavra de Deus é o recado, ensinamento, repreensão que Deus transmite para o seu povo, sendo ela suficiente para abastecer o crente durante todo o seu trajecto na fé (2Tm 3:16; Mt 24:35).

Portanto, a obediência a palavra de Deus torna a caminhada do crente segura, ao passo que, mesmo atravessando vendavais, tribulações não naufraga (Mt 7:24-25), é necessário nunca se despir dela, carregar ela onde quer que for (Mc 4:36-39), mesmo se levantando tribulações a palavra estará para repreender o vento (o seu algoz).

c) O jejum

O jejum é a renúncia voluntária de formas de satisfação de necessidades físicas, como alimentos, líquidos, como parte de um propósito espiritual.
O crente não vive apenas do alimento físico, mas, também do alimento espiritual (Mt 4:4), através de jejum o homem abdica a dependência das necessidades da carne, que segundo a Bíblia são mortais (Rm 8: 13; Gl 5:16-17), desta forma, o jejum serve para mortificar os desejos da carne que consequentemente nos levam a naufragar espiritualmente e vivificar as necessidades espirituais, que nos dão vida, e a Bíblia diz que há males que não saem senão pela oração e jejum (Mt 17:21).

III. Conclusão

Diante do exposto, conclui-se que o naufrágio espiritual é um processo que resulta do afastamento progressivo dos princípios de Deus, manifestando-se na perda da fé, vida pecaminosa e na ruptura da comunhão com o Criador. Segundo o exposto, factores como a imoralidade sexual e o amor ao dinheiro têm sido determinantes no naufrágio espiritual, levando o crente a consequências graves como a morte espiritual, a perda de identidade e a escravidão ao pecado.

Entretanto, verifica-se que o naufrágio espiritual não é um estado irreversível. Através do arrependimento sincero, da confissão dos pecados e da fé em Deus, é possível restaurar a comunhão perdida e retomar o caminho espiritual.

Por fim, ressalta-se a importância da prática contínua da oração, da meditação na Palavra de Deus e do jejum como medidas preventivas essenciais para a manutenção da vida espiritual. Tais práticas fortalecem o crente, permitindo-lhe enfrentar as tribulações sem naufragar, permanecendo firme na fé e na vontade de Deus.

Referências Bibliográficas

1.  Keller, Timothy (2018). deuses falsos. (1ª Edição). São Paulo:Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.

2.  Almeida, J. F. (2001). Biblia Sagrada. (Edição Revista e Corrigida). Portugal:Sociedade Bíblica.

Autor: Paulo Joaquim Massingue


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